sexta-feira, 23 de março de 2012

Por que escolhi trabalhar com Cultura de Paz?


Fui convidado a fazer uma palestra sobre  CULTURA DE PAZ na XXXVIII Jornada Internacional de Cinema da Bahia, que ocorreu em Salvador, em setembro de 2011.

Enquanto me preparava para falar a essa singular platéia, percebi que cineastas nada mais são que "contadores de histórias" e decidi contar-lhes a minha história. 

Ao fazer essa releitura da trajetória familiar, descobri que a Cultura de Paz está entranhada em nosso DNA... e isso, com certeza, teve profunda influência em minha escolha dessa temática como foco de minha atuação como educador, pesquisador e empreendedor social. 

Compartilho essa descoberta nesse vídeo: 


http://www.youtube.com/watch?v=diIgD2kwUkA&feature=youtu.be


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma ponte incomparável



Recentemente foi inaugurada a ponte mais extensa do mundo, na China, tendo sido destaque na mídia internacional. Entretanto, ela é pequena, se comparada com a ponte estabelecida por estudantes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Pontes servem para conectar, aproximar e facilitar o ir e vir, e as trocas. Nem todas as pontes são materiais. Há pontes invisíveis muito importantes conectando pessoas, grupos e comunidades. 

A maravilha da engenharia chinesa resultou da combinação de concreto e aço, tendo o desafio de atravessar 42 quilômetros sobre o mar da baía de Jiazhou. A conquista dos jovens baianos  interligou Santo Antônio de Jesus a Teerã, resultando da combinação de cidadania planetária e solidariedade humana, tendo o desafio (muito maior!) de superar os abismos da indiferença e o lodo do egoísmo.

Nem os onze mil quilômetros de distância, nem as diferenças de nacionalidade, idioma, cultura e religião foram capazes de impedir que corações e mentes se conectassem em torno da defesa do direito humano à educação e em favor da tolerância religiosa.

Tudo começou porque um grupo – que vinha estudando temas como ética e humanização, e refletindo sobre a vida de líderes servidores como Gandhi, Luther King, Mandela, Ruhiyyih Rabbani, Betinho, Chico Mendes, Irmã Dulce, Rigoberta Menchú e Helen Keller – decidiu realizar um “ato de serviço” – uma ação social que pudesse contribuir para a melhora do mundo.

Várias causas e possibilidades foram levantadas, mas houve uma, em especial, que os sensibilizou: milhares de jovens iranianos cujo acesso à universidade é proibido pelo governo daquele país. Creio que se deram conta de que o anseio de aprender, prosseguir com os estudos, conquistar um diploma e uma profissão é um sonho universal e um direito de todo ser humano. Ser impedido de realizar o seu sonho por causa de sua religião, por participar do movimento estudantil, por pertencer a uma minoria... é uma forma de violência e opressão inaceitável – em lugar nenhum do planeta. Dentre os mais violentamente perseguidos pelo governo iraniano encontram-se os 300.000 seguidores da Fé Bahá’í. Diante da negação sistemática de matrícula e da expulsão de alunos bahá’ís, essa pacífica comunidade religiosa organizou programas educativas para seus filhos, que culminavam no Instituto Bahá’í de Ensino Superior (IBES) – uma rede clandestina de professores voluntários, apostilas fotocopiadas e distribuídas secretamente, aulas presenciais em sótãos de residências particulares e estudo pela internet. A reação das autoridades é estarrecedora: professoras de aulas para crianças foram enforcadas, jovens que educavam adolescentes foram presos, e docentes do IBES receberam longas penas de aprisionamento.  

No conforto e segurança de nossa sala de aula na UFRB, jovens que muito batalharam para realizar seu sonho de cursar a universidade iam conhecendo a história de outros membros de sua geração, arbitrariamente impedidos de alcançar essa conquista. Estabeleceu-se então uma ponte – a da empatia, do compromisso com os direitos humanos e da luta por aquilo que é justo, verdadeiro e bom.

Em seguida, os estudantes da UFRB buscaram se inteirar melhor sobre o assunto e começaram a organizar uma atividade para informar e mobilizar professores, técnicos e seus colegas em relação a esse drama que está ocorrendo agora mesmo, no presente momento. Decidiram engajar-se em uma campanha internacional que vem ocorrendo em diversas universidades e pela internet: “Can you solve this?” (Você pode resolver isso?).

Assim, no dia 14 de fevereiro de 2012, o Centro de Ciências da Saúde da UFRB conectou-se com o povo do Irã, com os jovens bahá’ís  e os demais estudantes cujo acesso à universidade é impedido pelas autoridades da República Islâmica. Uma gigantesca ponte constituída pelo simples gesto de dizer “sim, eu me importo!”. Como ensinou Martin Luther King, “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”.

Naquela manhã, as pessoas chegavam para mais um dia de estudo e trabalho, e se deparavam com banners, cartazes e a exibição contínua de vídeos e documentários sobre uma situação que a maioria desconhecia até então. Durante todo o dia, os estudantes organizadores distribuíram panfletos e deram informações. Os transeuntes que dispunham de alguns minutos eram convidados a acessar ali mesmo o site da campanha e assinar uma petição on line dirigida a autoridades brasileiras e da ONU em favor da garantia do direito à educação – sem discriminações ou perseguições – pelo governo do Irã.

Mais de 200 pessoas assinaram a petição nos computadores disponibilizados. Cerca de 400 integrantes da comunidade acadêmica receberam o panfleto. Todas se sensibilizaram com a situação dos jovens ilegalmente privados do acesso ao ensino superior.

Descobrimos que 11.000 quilômetros podem ser “logo ali” quando nos reconhecemos como cidadãos planetários e co-responsáveis pelo bem-estar de todos. Não há obra de engenharia que se compare com essa conquista da consciência!


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Deus Tempo



De todos os deuses, o mais implacável é o tempo. Jamais volta atrás, é inapelável. Não pára um instante sequer. Não admite retrocessos nem aceita antecipações. Exerce seu poder transformador e deixa suas marcas, sem piedade. Não perdoa os que tentam enganá-lo ou desprezam a sua autoridade. Reina absoluto e permanente, afetando-nos a cada segundo.

Costumamos dizer que o tempo passa, mas na realidade quem passa  somos nós mesmos. E como passamos rapidamente. De simples célula-ovo nos transformamos em recém-nascidos, num piscar de olhos já saímos da infância, nem bem nos acostumamos com as mudanças da adolescência e já nos tornamos jovens, antes que possamos usufruir dessa etapa ficamos adultos e logo atingimos a terceira idade. E deste mundo passaremos para o vindouro. Enquanto nós vamos passando, o tempo permanece inalterado e intocado.  

Somos, portanto, passageiros dessa espaçonave chamada tempo. Nós passamos por ele e ele nos leva sempre adiante, rumo ao desconhecido. Apesar de ser implacável no exercício dos poderes que lhe foram concedidos, o deus tempo respeita as Leis do Universo e não transgride os limites que lhe são impostos. Por exemplo, o tempo não tem o poder de decidir para onde vai nos conduzir. Essa escolha é pessoal, íntima, intransferível.

Cabe a cada um escolher a sua destinação e, a nave tempo seguirá o rumo específico para se chegar àquela meta. O tempo não define o destino, apenas nos conduz para onde almejamos. O tempo respeita a nossa liberdade de escolha e não questiona se a rota é certa ou errada, se a viagem será boa ou ruim.   

Algumas pessoas passam a vida inteira adiando para amanhã a sua decisão. Outras, não desejam sair de onde se encontram. Ambas, ao concluírem a jornada, descobrirão que estão exatamente no quilômetro zero. Talvez nesse momento se arrependam, mas aí, o tempo demonstra o seu absolutismo e não permite viagens extras ou caronas. Afinal, quem chega ao fim de linha, ao ponto final, tem que descer do ônibus. É assim que funciona.  

Escolher é um direito mas também um dever. Direito porque ninguém pode lhe obrigar a fazê-lo e por ser um privilégio intransferível. Dever porque tudo o que existe tem um princípio e um fim, e unindo estes dois pontos há que haver uma linha, um sentido. O princípio é pré-determinado, o fim é uma escolha que resulta da direção empregada à linha da vida. Se não há uma escolha consciente, não há avanço na dimensão interna do ser. Isso significa que, o fim incidirá no mesmo ponto do princípio. Nesse domínio, o do espírito, é como se essa vida se resumisse a um único ponto, ao invés de uma linha.  

É, portanto, o dever de definir um rumo para que a espaçonave “Sua Vida” possa decolar. Dever de assumir um compromisso consigo mesmo, de se posicionar perante a existência, de ter consciência de quem se é e do que se almeja. Dever de deixar o mundo um pouco melhor do que quando nele chegamos.  

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Educação continuada de mães, pais e cuidadores - Uma experiência exitosa


O Programa Quero uma vida melhor para meus filhos  vem sendo desenvolvido desde 1999 em escolas, faculdades e ONG’s de diversas cidades brasileiras. Nesses 12 anos, participaram mais de 11.000 mães, pais e cuidadores, oriundos de todos os níveis sócio-culturais, beneficiando 150.000 crianças.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

Os temas mais trabalhados têm sido: 
 Desenvolvendo as múltiplas dimensões de crianças e adolescentes
  
 A psicologia da gravidez e amamentação
  
 Os desafios dos 5 primeiros anos
  
 Necessidades psico-emocionais da criança
  
 Liberdade e limites: Em busca do equilíbrio
  
 Adolescente X família: Como conciliar?
  
 Cultivando a saúde da relação pais – filhos
  
 Ética: oferecendo uma bússola para a vida
  
 O papel insubstituível do pai

 Valores no lar: onde a gente aprende a ser gente (de verdade)

 “Bullying”: quando a escola não é um ambiente acolhedor e seguro

 Sucesso na escola: como ajudar os filhos

 Prevenção ao abuso de drogas: quando e como começar?

 Educando com base em virtudes
METODOLOGIA

O Programa consiste de encontros nos quais são abordados temas críticos da educação de crianças e adolescentes na contemporaneidade. As apresentações focalizam princípios norteadores através dos quais cada pai ou educador pode buscar alternativas que sejam eficazes e, ao mesmo tempo, viáveis para o seu contexto familiar, visando ao desenvolvimento equilibrado das potencialidades de seu filho(a).

Cada encontro consiste de palestra, debates e intercâmbio de experiências. Exercícios práticos são propostos aos participantes e perguntas e depoimentos são estimulados. 
 
IMPACTOS

Os impactos positivos e as significativas mudanças proporcionadas pela metodologia do trabalho foram confirmados por avaliações feitas junto aos participantes.
Esse trabalho preventivo, quando desenvolvido de forma  sistemática e continuada, promove relações mais sadias e equilibradas no lar. Para crianças e adolescentes, isso é essencial, tanto do ponto de vista psicológico e emocional, quanto de seu desenvolvimento cognitivo e intelectual. O fortalecimento dos vínculos familiares é reconhecido como um fator de prevenção ao fracasso escolar, ao abuso de drogas, à marginalidade e violência, e à gravidez precoce.
IMPLEMENTAÇÃO
Quero uma vida melhor para meus filhos  é um programa com a chancela do INPAZ (Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos), podendo ser implementado em diversos formatos.

 
Desde novembro de 2009, o Programa foi implementado em quatro escolas públicas São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador, graças à Secretaria de Educação do município. 

Nos anos de 2007 e 2008, o Programa contou com a parceria da prestigiosa Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (http://www.bahiana.edu.br/). A "Bahiana" disponibiliza, em seu site, podcasts das palestras que ministrei este ano. São trechos das palestras, em vídeo e em áudio, que podem baixadas para o seu computador.

Para acessar esse material, basta clicar em: http://www.bahiana.edu.br/moodle/mod/resource/view.php?id=1442


PARA MAIORES INFORMAÇÕES

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fotos e registros de meu trabalho

Car@  internauta,


Criei um álbum no Facebook, com registros de diversas facetas de minha atuação profissional e acadêmica. O álbum é de acesso público:

 
Seja bem-vind@ a visitar o álbum, deixar seus comentários, divulgar o link....

domingo, 19 de junho de 2011

Momento Mágico

Herdei o amor à música clássica de meu pai. Melhor dizendo, aprendi a amar a música clássica com meu pai. Ele comprou uma vitrola e vários discos (de vinil, é claro) especialmente para que meu irmão e eu tivéssemos a chance de ouvir os clássicos. Assim como papai, sou apaixonado pela 5ª e 9ª Sinfonias de Beethoven.

Entre os CD’s e DVD’s que coloco para minha filha Kamili, vários trazem músicas clássicas. Essa escolha é intencional. Não se pode amar algo que não se conhece. O primeiro passo é entrar em contato, ouvir algumas vezes, até conhecer. Do conhecimento, brota o amor. É um processo de sensibilização: tornar-se sensível, receptivo. Em outras palavras, ser tocado pela música.

Hoje, Kamili pediu à mãe para ouvir a música do “tchi-bom-bom”. Para nossa surpresa e satisfação, ela se referia à Quinta Sinfonia de Beethoven – mais especificamente ao famoso “tchan-tchan-tchan-tchan”...

Minha esposa colocou o CD com uma versão da Sinfonia para bebês, e Kamili acompanhou a música balançando a cabeça. Em seguida, coloquei um DVD com a apresentação da Filarmônica de Berlim sob a regência de Herbert von Karajan. Eu precisava me barbear e ia deixá-la assistindo sozinha, mas me dei conta que para instilar o amor à música naquele coraçãozinho, eu teria que estar junto dela, apreciando, valorizando, compartilhando.

Assim, deixei as demais preocupações de lado, sentei-me no sofá e coloquei Kamili em meu colo para assistirmos ao DVD. Em alguns momentos, apreciávamos em silêncio; em outros, eu dava explicações (esse é o maestro, ele faz gestos para cada músico saber o momento certo de tocar), apresentava os instrumentos (veja o clarinete, esses são os violinos), explicitava os movimentos da música (ouça como está baixinha, agora todos vão tocar juntos, com força), cantarolava a melodia, e expressava o meu prazer com a beleza da composição.

Aninhada em meu colo, Kamili assistia a tudo em um silêncio comovente e um olhar compenetrado e reverente. Comungávamos juntos, de uma obra artística eterna e universal. Nesse instante, lembrei-me de meu Velho. Senti saudades dele. Agradeci a ele por essa nobre herança e por essa educação dos sentidos e sentimentos. Senti meu pai presente, compartilhando conosco daquele momento mágico em que o amor à música clássica era transmitido de uma geração à seguinte.

É provável que, no futuro, Kamili não se recorde desses breves minutos mas, para mim, ficarão eternizados como um precioso Momento Mágico.

sábado, 1 de janeiro de 2011

SUCESSO, FRACASSO E PERFECCIONISMO

Trabalhando com formação de lideranças há mais de vinte anos, observo uma tendência crescente: o perfeccionismo. Acompanham-no seus efeitos colaterais – ansiedade, medo de fracassar, obsessão pelo sucesso, frustração, competição exagerada e depressão.

Alguns pensam que perfeccionismo é virtude, mas não é. É garantia de sofrimento, já que a perfeição é inatingível. Por melhor que seja um automóvel ou um computador, por mais bela que seja uma flor ou uma mulher, sempre é possível se imaginar outro/a que lhe seja superior.

Os perfeccionistas sofrem porque não importa o quanto se esforcem, terminam constatando que não alcançaram a “perfeição”. Se, ao invés dessa meta inalcançável, estivem buscando a excelência, certamente se sentiriam mais fortes, motivados e capazes. Isso porque a excelência de cada coisa, projeto ou objetivo é definida levando-se em consideração as condições prévias, os recursos existentes, o prazo disponível, o grau de experiência e competência, os apoios possíveis, dentre outros fatores que influenciam todo e qualquer resultado. Por outro lado, ao se definir a perfeição de algo, desconsideram-se o contexto, o momento, as possibilidades e limitações. Não é algo inteligente de se fazer, portanto.

Dentre os efeitos colaterais do perfeccionismo destaca-se a “ansiedade de desempenho”. A obsessão pelo sucesso e o medo de fracassar não ajudam a pessoa a avançar, crescer e conquistar o que almeja, mas sim, interferem negativamente como uma profecia auto-realizadora.

Para se libertar dessas amarras, é preciso buscar a nossa própria definição pessoal de “sucesso” e “fracasso”. Embora todos acreditem “pensar com a sua própria cabeça”, a verdade é que a maioria de nossos modelos mentais é construída sobre crenças e conceitos que absorvemos de modo inconsciente da cultura em que estamos imersos. O primeiro passo, portanto, é questionar cada uma das premissas sobre as quais nosso modelo mental de sucesso e fracasso se baseia.

Se você constatar que os seus conceitos de fracasso e sucesso são estreitos, rígidos e cheios de expectativas exageradas – porque fundamentados no perfeccionismo –, então pergunte a si mesmo se deseja, conscientemente, adotar esses critérios para nortear e avaliar sua vida?

Ao refletir profundamente, você descobrirá que só existem três possíveis fracassos na vida:

1. NÃO TENTAR - Quando você está com tanto medo de errar ou perder que decide que é melhor desistir, mesmo sem haver tentado.

2. DESISTIR - Quando você tenta um pouco, por algum tempo, percebe que o seu sonho é desafiador, e então decide que será mais fácil mudar de sonho, ao invés de lutar por ele. (É claro que há situações nas quais você já fez todos os esforços para atingir uma meta, já tentou todas as estratégias e, após uma cuidadosa avaliação, decide estabelecer uma nova meta para si mesmo. Isto não é desistência!).

3. NÃO APRENDER COM AS TENTATIVAS E ERROS - É preciso perguntar-se, sempre: “o que posso aprender dessa experiência? Que lições posso extrair dessa dificuldade?” Quando não se faz esse tipo de questionamento, o passar do tempo acarreta apenas no aumento da idade, e não no amadurecimento. Maturidade provém da reflexão e do auto-conhecimento, não do envelhecimento.

Quem compreender esses fatos, nunca se sentirá um fracassado na vida. Mesmo se houver tentado tudo o que podia e tudo tiver saído “errado”, saberá que tudo isso foram TENTATIVAS, e não fracassos. Entenderá também que fracassar em uma situação específica não significa, de modo algum, ser um fracassado (por inteiro)!

Tentar conscientemente é aprender. E aprender traz experiência. A experiência nos prepara para não repetir os mesmos erros. Então, cometem-se outros erros, que vão ensinar novas lições. Como disse Carlinhos Brown, “vamos cometer novos erros”! Todo esse processo resulta em amadurecimento. Portanto, se você foi capaz de aprender alguma coisa de uma experiência, ela jamais poderá ser considerada um fracasso.

Feliz 2011 !

Estimad@  Internauta que visita este blog,

Espero que você e todos que você ama tenham celebrado as Festas com saúde, amor e alegria, preparando-se para fazer de 2011 um novo estágio evolutivo em seu crescimento como pessoa, como membro de sua família, sua comunidade e de nossa humanidade.

Que nessa caminhada encontremos formas mais efetivas de nos colocarmos a serviço da melhoria do mundo, e sejamos capazes de nos apoiar e encorajar mutuamente.

Aproveito para compartilhar algumas coisas que aprendi em 2010, e se você puder me retribuir na mesma moeda, ficarei imensamente agradecidoSinta-se convidad@ a deixar o(s) seu(s) aprendizado(s) aqui, nos comentários.  

Aprendi, com a minha amiga Profa. Terezinha Rios, que "a História não é a passagem do tempo por nós, é a nossa interferência no tempo".

Por isso, precisamos nos questionar sobre que MARCA temos deixado no mundo... Será que estou contribuindo de forma proativa para gerar diálogo, cooperação, respeito mútuo, inclusão, justiça e solidariedade?

Afinal, paz, ética e valores humanos não brotam por "geração espontânea"! É preciso que sejam intencional e sistematicamente semeados, cultivados e preservados!!!!

Também aprendi com as sábias palavras de Bahá'u'lláh (Fundador da Fé Bahá'í), que diz: "A melhora do mundo pode ser realizada através de ações puras e boas, de conduta louvável e digna".

Ou seja, podemos interferir no tempo, ajudando a melhorar o mundo na medida em que nos esforçarmos para que nossas ações tenham pureza de intenções, sejam motivadas pelo desejo de fazer o Bem e se caracterizem por gerar o Bem para a coletividade; e que o nosso comportamento seja cada vez mais pautado na ética e em valores universais, bem como reto e correto.

Desejo a você um Ano Novo permeado por aquela Felicidade profunda e verdadeira, que brota da realização do sentido maior da existência, do serviço à humanidade, e da transformação rumo ao Melhor que habita em cada um de nós!

domingo, 21 de novembro de 2010

Igualdade Racial - o fórum da UFRB e o poema

Participei, há poucos dias, do IV Fórum de Igualdade Racial promovido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Tive o privilégio de ministrar uma oficina para adolescentes do Ensino Médio e jovens universitários com o tema "Fortalecendo a auto-estima do jovem afrodescendente". As discussões, reflexões e troca de experiências durante a oficina foram riquíssimas, e me senti feliz por "fazer a diferença". Compartilho um poema que escrevi há mais de doze anos, sobre racismo e escravidão:

CORRENTES  E  CHAGAS


Será que o senhor me entenderá?
Será que o Senhor me atenderá?

As correntes ainda são pesadas
A vida ainda é pesada
As torturas ainda são pesadas
A angústia ainda é pesada
As cargas ainda são pesadas
A sina ainda é pesada

Será que o senhor se perpetuará?
Será que o Senhor te perdoará?

As chagas são profundas
A dor é profunda
As mágoas são profundas
A tristeza é profunda
As humilhações são profundas
A decepção é profunda
 Será que o senhor se acobertará?
Será que o Senhor me acolherá?

A vida acorrenta
As chagas torturam
A sina, humilhante
As mágoas, cargas
A angústia dói
As decepções entristecem

Será que o senhor se selvará?
Será que o Senhor me salvará?

Será que alguém me entende
quando grito
as correntes da escravidão
ainda não foram rompidas?
as chagas do racismo
ainda não foram curadas?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os mineiros chilenos e a caverna de Platão

O antídoto para a guerra, e todas as suas nefastas consequências, obviamente, é a paz. Entender ou visualizar a guerra é muito fácil. Basta ver os que caem. Provocá-la é ainda mais fácil.

Mas, entender a paz, aceitá-la e disseminá-la não é tão simples quanto possa parecer. Antes de qualquer coisa, é preciso ceder. Dar um passo atrás, reavaliar a situação e abrir mão de posições. Evitar o confronto às vezes quase inevitável em função de uma posição extremamente desconfortável.

Como, por exemplo, o caso dos 33 mineiros presos nas profundezas da terra, no meio do deserto mais seco do mundo, o Atacama, no Chile.

Foram 69 dias presos em uma mina, convivendo num buraco, 600 metros abaixo da superfície. Afundados numa convivência delicada e alimentada por temores, incertezas. À espera da vida, do retorno à sua própria e rotineira vida.

Providencial, a paz reinou entre eles. Como será que ela foi construída, conquistada e disseminada? Precisamos saber para que nos sirva de exemplo.

Prevaleceu a paz e com ela, a vida em toda a sua plenitude.

Muita gente ganhou com o show em torno do salvamento desses mineiros. Pouco importa, pois as maiores vitoriosas foram a vida e a paz, promovida com relações de respeito, diálogo, participação e cooperação.

Os 33 mineiros construíram uma cultura de paz e um “pacto de convivência” trabalhado em profundidade.

Interessante que, enquanto eram acompanhados pelo mundo, literalmente, estavam sozinhos, com pouca luz, calor e umidade intensos, sem sol, estrelas, ar puro, vento. Enfim, aquilo a que não damos tanto valor assim, pela presença discreta em nossas vidas.

Também não tinham a presença dos familiares, nem os problemas, é claro, derivados das dificuldades de relacionamento humano.

De certa forma trouxeram, para os dias de hoje, o mito da caverna de Platão. Na caverna, para o genial filósofo grego, havia seres humanos que ali nasceram e cresceram. Como metáfora, digamos que os mineiros renasceram – ao não ser soterrados – e cresceram – ao encontrar maneiras de autocontrole e determinação para resistir à prisão no fundo de uma mina.

Os prisioneiros na caverna de Platão somente enxergavam uma luz, no fundo, que projetava sombras de outros seres. Sombras que, para eles, pareciam a realidade.

Um dos prisioneiros decidiu fugir e, ao sair, descobriu que as sombras, na verdade, eram de homens iguais a eles, mas que nasceram e viviam fora da caverna.

Ao voltar, tentou contar o que vira, mas sofreu violências e morte. Ora, os mineiros do Chile inicialmente se deslumbraram com as forças que se uniram para salvá-los. Agora temem o futuro, a pobreza, as dificuldades, enquanto são assediados pelos que querem faturar com a história, em livros e filmes.

Percebem, então, que as sombras eram de homens iguais a eles, prisioneiros não no fundo de uma caverna, mas das convenções e dramas típicos de nossa espécie. Como os mineiros, tentamos sair da caverna, chegar à luz e viver intensamente. Buscamos a paz, enquanto fazemos mais guerras.

Temos dificuldade de lidar com o jogo das sombras e da realidade. Como previra Platão, dentro e fora da caverna, há dificuldades para ir em frente, embora, nos ciclos históricos, ocorram avanços.

Caminhamos, mas tropeçamos nas sombras, distraídos, parodiando o inesquecível chão de estrelas. Temos que seguir pelo caminho da paz, pois outro não há, e valorizar as coisas reais que, 600 metros terra adentro, tanto faziam falta aos mineiros chilenos.

Temos que viver com dignidade e deixar viver com respeito, e isto já será uma epopéia e tanto, embora não seja tema para livros e filmes.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Dia Mundial do Professor: 5 de outubro

P R O F I S S Ã O    D E      F É
Esta é a minha singela homenagem aos professores que conquistam o grau de Educadores:


A agricultura é uma profissão de fé. Fé, não no sentido de frequentar igreja, nem de ficar parado, esperando que Deus lhe conceda os seus desejos. Fé em sua acepção mais profunda, de acreditar e fazer a sua parte, mesmo sem a garantia do final desejado, mesmo sem enxergar aquilo que se quer alcançar. Fé como uma mescla de certeza, determinação, esperança e entrega ao processo, independentemente dos resultados.

O segredo do agricultor é a sua fé. Não há qualquer garantia quanto à colheita, mas ele planta mesmo assim. Ano após ano, movido pela fé, ele prepara a terra, seleciona as sementes, espalha-as criteriosamente e passa a cuidar de sua plantação.

Na realidade, durante algum tempo, quem olhar para o terreno, nada verá, exceto o solo revolvido, pequenos montes de terra e uma aparência desértica. O agricultor, entretanto, sabe que aquela cena aparentemente caótica oculta poderosos processos de transformação. Silenciosamente, as sementes começam a interagir com o solo, a água e o calor do Sol. Lentamente, uma nova vida tem início. Tudo isso é invisível para quem mira a terra, mas o agricultor mantém-se inabalável em sua fé. Sem se importar com o que as aparências ou com que pode ser visto na superfície, ele cuida do terreno diariamente, incansavelmente. Esparge água na medida certa. Arranca as ervas daninhas. Afugenta os animais que podem atacar a plantação. Protege-a das intempéries da natureza. Vigia para que pragas não se disseminem. Aduba o solo.

Mesmo sem a garantia da colheita, o agricultor acredita tanto que continua a fazer tudo o que é necessário e tudo o que estiver a seu alcance, para que o máximo de sementes possa brotar, se desenvolver e frutificar. Ele tem consciência de que há fatores críticos que se encontram totalmente fora de seu controle – a seca, a enchente, o vendaval, as pestes e variações bruscas de temperatura... Essa consciência, ao invés de desmotivá-lo, torna-o mais humilde e, ao mesmo tempo, obstinado em fazer a sua parte, no melhor de suas possibilidades.

Desse modo, se as condições climáticas forem favoráveis, ele terá uma superprodução. Se forem razoáveis, ele conseguirá, ao menos, recuperar o seu investimento. Se o clima for desfavorável... bem, o agricultor sabe que essa possibilidade existe e já a sofreu várias vezes, mas ele opta por não incluí-la em suas previsões, pois, se o fizesse, desistiria de seu ofício. E o restante da sociedade passaria fome.

Há vários tipos de agricultor. Dentre eles, um se destaca pela preciosidade das sementes que planta e pelo tempo que elas levam para brotar e frutificar. Essas características do seu cultivo exigem desse tipo de agricultor as mais altas doses de paciência e perseverança. Paciência, muita paciência. Perseverança, muita perseverança. Paciência e perseverança combinadas. Isso sem falar da fé inabalável e da dedicação incansável.

Trata-se do Educador. Seus campos de cultivo são os Corações e as Mentes dos educandos – terrenos férteis, mas cujo preparo e manutenção exigem grande esforço. As sementes que planta são o bom exemplo, a sabedoria e o encorajamento. A água que esparge é a sua palavra, portadora não só de conhecimento, mas também de sentimentos construtivos. O afeto que irradia através de seu olhar, gestos, posturas, do que diz e do que silencia, constitui a luz e o calor que energiza o solo.

Alguns agricultores precisam trabalhar durante semanas, talvez meses, até que chegue o momento da colheita. Já ao Professor, não é dado ver os frutos de seu trabalho. São raras as oportunidades em que ele próprio testemunha o desabrochar dos educandos ou a frutificação de seus ensinamentos, pois as sementes que semeia levam dez, quinze, vinte anos para dar frutos.

Outra característica que distingue o Educador dos demais agricultores: ele planta, mas não lhe cabe colher. Quem colhe é o próprio educando, a sua família e a sociedade como um todo. Por essa razão, o ofício de Educador caracteriza-se pela abnegação. Não qualquer abnegação, mas a legítima, que implica em abnegação de si mesmo, abnegação dos desejos de popularidade e reconhecimento, abnegação dos resultados imediatos de seu trabalho, abnegação da busca por “soluções mágicas”, “atalhos milagrosos” ou “respostas fáceis” aos desafios que enfrenta.

Se o Educador não tivesse tal abnegação, exigiria “garantias prévias” quanto ao resultado de seus esforços, cobraria a possibilidade de participar dos benefícios da colheita. Ninguém pode lhe dar a certeza de que os ensinamentos que semeia encontrarão acolhida entre os educandos, que suas qualidades como educador serão reconhecidas ou valorizadas, que sua dedicação ao ensino será recompensada pelo aprendizado dos estudantes. Este ofício exige, por sua própria natureza, total concentração no processo e sincero desprendimento dos resultados. Em outras palavras, exige entrega.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cultura de Paz contra a violência

Uma versão levemente reduzida do artigo a seguir foi publicada pelo JORNAL DA TARDE, de São Paulo, na seção Opinião (pag. 2), em sua edição de 25/09/2010.

Quem de nós fica tranquilo quando um filho ou filha sai à noite, em busca de diversão nas baladas da juventude?

O medo da violência, ironicamente, leva muitos a clamarem por mais violência para aplacá-la. Como se bombeiros usassem gasolina na luta contra um incêndio.

É o que ocorre quando se opta pela repressão como único (e discutível) antídoto aos crimes que alguns programas sensacionalistas fazem questão de alardear com máximo estardalhaço.

Outros brandem as questões estruturais como justificativa para os crimes. Ou seja, só teremos uma sociedade mais pacífica se e somente se todos os problemas estruturais como fome, falta de saúde e de educação forem solucionados.

Tal crença, contudo, conduz ao imobilismo, à desistência de se encontrar alternativas para a violência. Se formos esperar que toda a estrutura social seja reformada, para só depois agir, estaremos perdendo inúmeras oportunidades de realizar pequenas ações e intervenções pontuais que, somadas, podem resultar em significativas melhorias.

A cultura da paz parece-me mais apropriada, exequível e eficaz. Ela nos convida a aproveitar cada espaço – sala de aula, bar, condomínio, escritório, praça – como um fórum permanente de reflexão e de busca de opções para a construção da paz.

Mas isto funciona mesmo, no dia a dia, em que motoristas param seus carros para brigar porque um teria fechado o outro?

Sim, porque o verdadeiro antídoto contra a violência é a paz. Não há outro. Paz entendida como respeito, diálogo, empatia e participação cidadã. Até porque a forma mais disseminada e frequente de violência é a cometida entre familiares e parceiros íntimos. Logo, parte considerável dos crimes não é cometida por profissionais do submundo, e sim por pessoas comuns, respeitáveis cidadãos que, em determinado momento, perdem a cabeça por situações corriqueiras – uma discussão doméstica sem sentido ou uma provocação na rua.

Um dos melhores lugares para se fomentar os valores da paz é a sala de aula. Para isso, teremos que tornar o ensino cada vez mais atraente e com conteúdo significativo, sintonizado com as necessidades do mundo real e com o mundo virtual das redes sociais.

Nas regiões de baixa renda, é necessário que as escolas reconheçam as condições de vida dos estudantes, considerando situações como a inexistência de mesas, cadeiras e de ambiente para uma prosaica lição de casa. Se não há moradia digna, como exigir que o aluno estude no lar? Até que ponto os cursos de Pedagogia preparam os futuros educadores para lidar com essa realidade e compreender as necessidades de grande parcela dos educandos?

Parecem ser detalhes, mas fazem diferença. Atividades artísticas e esportivas, estudos ao ar livre, jogos, realização de ações sociais na comunidade e uso pedagógico da internet podem mudar a visão que os alunos têm da educação. E, com isso, abrir espaço para a discussão e vivência de temas como a pacificação de corações e mentes.

Não se trata de um movimento rápido, imediatista, com resultados ao final do expediente. É uma mudança cultural, uma revolução real, que trará frutos em médio prazo, pela mudança de atitudes individuais e pela construção coletiva de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

Temos que começar logo. Estimular os professores que já ousam introduzir elementos da cultura de paz em suas classes. Não há investimento mais relevante hoje – fortalecer a escola, o professor, o estudante e sua família. Impedir que as comportas da violência transbordem e criar um futuro do qual possamos nos orgulhar.

Mostrar às crianças e jovens que há caminhos, sim, para a solução de conflitos - longe da agressão e criminalidade.

Apontar saídas para a pobreza e exclusão a partir do conhecimento, do trabalho, dos valores humanos e da cooperação social.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DIA INTERNACIONAL DA PAZ

Divulgo texto do jornalista Nereu Leme, da Casa da Notícia:

No Dia Internacional da Paz, Feizi Milani afirma que a paz precisa ser conquistada

O Conselho Parlamentar pela Cultura da Paz, da Assembléia Legislativa de São Paulo (CONPAZ) e a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, da Prefeitura de São Paulo (UMAPAZ), comemoraram nesta terça-feira (21/9/2010) o Dia Internacional da Paz, estabelecido pela ONU.

Defensor da disseminação do direito universal à paz como premissa para construir uma sociedade mais justa e formar jovens mais conscienciosos acerca de sua importância social, Feizi Milani, Professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, fez uma palestra para alunos e professores do Curso Carta da Terra em Ação na UMAPAZ e disse que “a paz não acontece sozinha; tem que ser construída”.

Ele explicou, tanto na reunião do CONPAZ quanto na UMAPAZ, que o desafio da sociedade moderna é sensibilizar e mobilizar cada vez mais pessoas para a construção da paz:

“A paz requer compromisso e engajamento de cada um de nós e de toda a sociedade, porque a paz se manifesta não pela força, mas pela compreensão”, disse Feizi Milani.

De acordo com o médico e educador, é possível se identificar dois processos simultâneos hoje no mundo: desintegração e integração. O primeiro leva a sociedade ao declínio e o segundo à emergência de uma nova cultura.

Explicou, por exemplo, que no tema sustentabilidade, nunca houve tanta agressão ao meio ambiente, o que representa o processo de desintegração.

“Mas, também nunca houve tanta consciência de que precisamos fazer alguma coisa para salvar o planeta, além de ações concretas com esse objetivo. Esse é o processo de integração que deve ser seguido pela sociedade, no nível macro e pelos indivíduos, no nível micro”, explicou.

A experiência profissional deste médico-educador deu origem ao livro “Tá combinado! Construindo um pacto de convivência na escola”. Milani também fundou o Instituto Nacional de Educação para a Paz (INPAZ), uma organização não governamental e sem fins lucrativos, que reúne uma rede de profissionais qualificados e experientes de várias regiões do Brasil. Em seus 10 anos de existência, a ONG capacitou centenas de professores e jovens, publicou três livros e participou de eventos de grande relevância social e educacional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Educação para o mercado de trabalho

Toda vez que a economia brasileira cresce em ritmo mais acelerado, há uma reclamação comum às empresas: faltam profissionais preparados para preencher as vagas existentes. A formação oferecida pelo Ensino Médio e pela Universidade não contemplaria as necessidades do mercado de trabalho. Muitos defendem, então, que haja ênfase absoluta em conhecimentos e técnicas requeridos para o dia a dia do trabalho. Ou seja, que a formação acadêmica seja definida pelos ditames e demandas do mercado..

Não nos esqueçamos, contudo, que a qualidade profissional de qualquer trabalhador depende diretamente de suas qualidades como ser humano. Ninguém se torna um profissional sem antes se constituir como ser humano. Esse ser humano pode se caracterizar por honestidade e integridade, por exemplo, ou pela ausência dessas qualidades.

Qual é o empresário interessado em contratar um profissional mentiroso ou desonesto? Alguém já calculou quantos recursos financeiros já foram queimados por profissionais cujo caráter não era fundamentado em valores éticos? Pensemos nos prejuízos causados pelas variadas formas de corrupção, tanto em órgãos governamentais quanto no setor privado, pela venda de informações comerciais ou segredos industriais, e outras escolhas moralmente equivocadas... Tudo isso foi feito por profissionais altamente competentes em suas especialidades, muitos dos quais oriundos das melhores escolas!

Essa opção entre “capacitação técnica” e “formação humana e ética” é ilusória, porque não são excludentes. Ao contrário, são complementares, e uma exige a outra. Capacitação voltada somente a habilidades técnicas e conhecimentos científicos poderá solucionar a demanda por mão de obra em curto prazo, mas irá desencadear consequências negativas por muito tempo. Por outro lado, que sentido faria prover uma formação humana e ética desconectada das necessidades concretas da sociedade?

Logo, por mais difícil que pareça, temos que educar a criança, o adolescente, o jovem para ser um profissional, um eleitor, um contribuinte e um consumidor consciente. Em suma, para ser uma pessoa que trabalha, que exerce a cidadania, que se dedica à família, aos amigos e ao bem comumda sociedade.

Não podemos retroagir ao ambiente retratado, brilhantemente pelo genial Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”. O ser humano não deve ser reduzido à “mão de obra”. Ninguém, exclusivamente, profissional. Somos pessoas com múltiplas dimensões e potencialidades, e a educação pode e deve nos ajudar a sermos melhores e plenos, em todos os sentidos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os males do excessivo individualismo

A dificuldade de se trabalhar em grupo reside no fato de que esse processo depende de um conjunto de qualidades, atitudes e competências que muitos não desenvolveram

Um dos paradoxos de nossos dias está na exigência de profissionais competitivos, de um lado, e de cidadãos que saibam trabalhar de forma ética e viver em comunidade, de outro. Ou seja: querem que saibamos partilhar, mas somos estimulados, ensinados e cobrados a vencer e superar o próximo.

Exatamente porque essa cultura ainda predomina é que precisamos trabalhar, de forma cada vez mais sistemática, continuada e eficiente, para promover princípios éticos. O ambiente escolar e universitário deve propiciar situações concretas por meio das quais os estudantes vivenciem experiências de cooperação, resolução de conflitos e convívio com as diferenças. Não basta apregoar esses valores, é preciso que eles sejam exercitados na prática.

Precisamos perceber a relação direta de causa-efeito entre o discurso da competição extrema, do sempre levar vantagem, do vencer a qualquer custo, do cuidar somente de si e do que é seu, e o panorama geral da sociedade, marcado por violências, destruição ambiental, solidão e vazio existencial.

Muitas pessoas fazem de conta que uma coisa não tem nada a ver com a outra. É como se pensassem: eu posso ser egoísta, mas a sociedade deve ser solidária! Como é possível haver uma sociedade humanizada, justa e acolhedora formada por pessoas individualistas e egocêntricas?

A cultura ocidental contemporânea se caracteriza pelo individualismo e pelo imediatismo. E como todos nós estamos imersos nessa cultura, tendemos a acreditar que trabalhar em grupo seja uma tarefa quase impossível, algo que exija um esforço sobre-humano. Reconheço que não é fácil trabalhar em grupo; no entanto, "Sozinho se vai mais rápido, mas juntos se vai mais longe".

É trabalhando em grupo que a pessoa pode aprender mais, enriquecendo sua visão ao entrar em contato com percepções diferentes. É impossível a alguém enxergar a multiplicidade de ângulos de uma questão – principalmente se esta for complexa. Ora, a maior parte dos problemas que uma empresa (ou a sociedade) enfrenta são de grande complexidade, e requerem abordagens que incluam a diversidade, a multiplicidade e a multidimensionalidade. Isso só pode ser alcançado em grupo.

A dificuldade de se trabalhar em grupo reside no fato de que esse processo depende de um conjunto de qualidades, atitudes e competências que muitos não desenvolveram ao longo de um processo de escolarização tecnicista – empatia, escuta ativa, respeito às opiniões contrárias, tolerância para com o jeito de ser de cada um, humildade em reconhecer que não é o dono da verdade, cortesia etc. É por intermédio do diálogo e da participação que um grupo se constrói.

Obviamente, ninguém nasce sabendo trabalhar em grupo. É preciso aprender, e esse aprendizado se dá na prática e ao longo da vida. Observemos os estágios do desenvolvimento infantil: o bebê não admite partilhar seus brinquedos; a criança aceita emprestar o seu brinquedo a outra, desde que haja uma permuta; a criança maior já é capaz de participar em esportes coletivos; e o adolescente busca ativamente engajar-se em algum grupo e sente prazer na partilha. O amadurecimento se dá em direção a relações de cooperação e interdependência.

Mas a cultura pode tolher esse aprendizado. Não podemos tolerar o excessivo individualismo, egoísmo que nada constrói. Temos que reaprender a trabalhar – e a nos desenvolver – em equipe.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Medicina, Saúde e Universidade - reflexões que permanecem

Fui o orador de minha turma, na cerimônia de colação de grau em Medicina, na Universidade Federal de Alagoas. Já se vão mais de vinte anos desde aquele 9 de julho de 1988, hoje sou professor do curso de Medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Continuo a sentir que várias das idéias que expressei no discurso de formatura permanecem atuais - por isso, compartilho-as com vocês:


(...) À medida que avançávamos no curso, fomos descobrindo, para nosso espanto e decepção, que Medicina não é sinônimo de Saúde. Pelo contrário, a Medicina mecanicista, tecnicista, mercantilista e ultra-sofisticada muitas vezes praticada atualmente tornou-se um empecilho à verdadeira melhoria das condições de saúde da população como um todo. Pois que Saúde pode ser considerada como o estado de completo bem-estar físico, mental, social e espiritual. Não pode ser vista apenas como ausência de doença, lesão, debilidade ou deficiência.

Esta visão ampla e global da Saúde permite-nos compreender que ela está diretamente relacionada e é, na realidade, dependente de fatores e questões tais como salário real, qualidade de vida, nutrição, condições de habitação, saneamento básico, higiene, produção e distribuição de alimentos, tradições e costumes populares etc. Basta acrescentarmos que hoje, no Terceiro Mundo, a doença mais freqüente, mais indecente e que causa maior número de mortes é a fome. E é também a doença que mais facilmente poderia ser evitada, pois existe uma vacina altamente eficaz e simples: panela cheia todos os dias!

Percebemos, então, que os médicos deveriam estar plenamente engajados na discussão e solução dos problemas mais amplos da sociedade, e não apenas preocupados em diagnosticar doenças e medicar doentes. Afinal, se a Saúde depende de tantos fatores, por outro lado, é ela que viabiliza toda e qualquer atividade humana.

Hoje, nós médicos estamos sentados nos consultórios, nos hospitais e nos gabinetes burocráticos, aguardando passivamente que as pessoas adoeçam, para que então possamos intervir. Entretanto, não é este o nosso papel e nem é esta a nossa missão.

Não obstante, para nossa vergonha e para descrédito das instituições educacionais brasileiras, podemos afirmar que nos seis anos que passamos na Universidade, não houve “tempo”, “espaço” ou “abertura” para debater questões prementes, tais como a fome, os menores abandonados, o alcoolismo, a toxicomania, a prostituição, o aborto, a morte e tantas outras... Jamais tivemos a oportunidade de participar numa discussão na qual as causas e conseqüências desses fenômenos fossem abordadas em seus aspectos médicos, sociais, psicológicos, morais, históricos, políticos, legais e econômicos. Chegamos, então ao ponto de questionar: para que serve o Conhecimento? Para que serve a Universidade, se o conhecimento que ela transmite nos distancia e aliena da realidade em que vivemos?

A impressão que se tem é que a Universidade brasileira está situada não na Terra, mas em outro planeta, talvez Saturno, onde os anéis coloridos distraem e desviam a atenção dos problemas concretos que exigem solução imediata.

A Universidade precisa corrigir os seus rumos, reconsiderar tudo que tem feito até agora, sair da “torre de marfim” em que se isolou e olhar para si própria como um dos membros que compõe o organismo vivo da sociedade. Se nós, alunos e professores universitários, tivemos uma oportunidade melhor que a maioria de nossos concidadãos, é nosso dever inescapável oferecer uma parcela maior de trabalho para o bem-estar coletivo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lunático

Sempre que apareces assim, em teu esplendor pleno, em tua beleza radiante, sinto que fico ensandecido. Tento, em vão, desviar o meu olhar, mas algo em ti me hipnotiza e volto a te contemplar, extasiado.

Sei que jamais serás minha, mas ainda assim sonho em ter-te só para mim. E faço de conta que não sei que derramas teu charme para todo e qualquer homem, até mesmo para os que não te dão atenção. Apesar de tudo, não tenho ciúme. Eu me conformo, desde que eu sinta que, em meio à multidão de admiradores e apaixonados, tu me percebes.

Tu sabes, como ninguém, cultivar essa aura de mistério - convidativa e distante ao mesmo tempo, por vezes, exibida ou tímida, sensual ou fria - o que te torna mais sedutora ainda.

Faço de conta que não existes, mas ao primeiro sinal de tua aparição, todo o meu ser se altera. Pra ser sincero, já me dei conta que, desde a véspera, entro num estado de expectativa e excitação, como se a intuição colocasse todo o corpo em estado de alerta. Fico sensível, agitado, inundado de desejos.

Tento me esquecer de ti, dessa paixão impossível, mas logo descubro tratar-se, na realidade, de um amor incurável. Às vezes me aborreço por teres um efeito tão intenso sobre mim, como se eu não conseguisse me controlar. “Quem ela pensa que é ?”

E quando resolves brincar de esconde-esconde, fugindo de mim por detrás de árvores, prédios, nuvens ? ... Atiças meu desejo e reafirmas que és livre, segues teu próprio ciclo e que ninguém te controla. Que posso fazer ?

Quando vais embora sem me avisar, fico magoado, furioso e indignado com tua falta de consideração... Mas já me acostumei a teus hábitos e aceitei as condições que estabeleceste para o nosso relacionamento. Que posso fazer ?

Mas essa indignação desaparece assim que ergo os olhos e descubro que tu, Lua Cheia, estás a iluminar o céu da Terra e do meu coração, também. Pena que demoras 28 dias para regressar e trazer de volta a minha inspiração.

sábado, 24 de outubro de 2009

Viagem

Hoje vou iniciar uma viagem...

Uma viagem,
que nem Marco Polo ousou,
mais demorada que a volta ao mundo
para mais longe de que qualquer Pioneer tenha ido,
a uma profundidade que nenhum submarino atingiu,
tão alta que os melhores alpinistas fracassariam,
numa velocidade mais rápida que a da luz e
lenta como uma lesma sonolenta,
gloriosa como as grandes expedições dos bravos conquistadores,
árida como a travessia do Saara,
turbulenta como uma guerra civil,
perigosa como o salto de Ícaro,
explosiva como a bomba de Hiroshima,
difícil como a travessia do Mar Vermelho,
predestinada como a jornada dos três Reis Magos,
incerta como estar acorrentado nos porões de um navio negreiro,
original como uma obra de Picasso,
estremecedora como um terremoto,
imprevisível como os humores de um adolescente,
cansativa como maratona,
dolorosa como o dilúvio,
a lugares tão desconhecidos
quanto a mais longínqua das estrelas...

Hoje – deseje-me boa sorte –
vou iniciar uma viagem.

Vou em direção
ao desconhecido que habita em mim,
ao íntimo de meu próprio coração,
às profundidades de minh’alma...

Vou
em busca de mim mesmo,
à procura do meu verdadeiro Eu ...

Vou conquistar as terras desbravadas de minha mente e,
um dia,
se Deus quiser,
retornarei vitorioso...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

DOR

Fui lançado ao mar da Dor. Nele imergi. Instantaneamente, a Dor circundou-me de todos os lados. A Dor penetrou em cada poro. Quanto mais eu me debatia, na tentativa de fugir, maior se tornava a Dor.

Já não havia o meu corpo, apenas a Dor. A Dor estava em mim e eu era a Dor. Parecia que não mais havia ar pra se respirar. Imaginei que eu não conseguiria sobreviver, não suportaria tanta pressão.

Meus gritos de socorro ecoavam no vazio. Meu desespero crescia. Cada segundo equivalia a semanas de sofrimento. Parecia que todas as células de meu organismo estavam sendo espremidas ao mesmo tempo.

Minha angústia aumentava à medida que milhares de perguntas pululavam: por que eu? Por que comigo? Por que agora? Por que tão doloroso? Por que não passa? As perguntas, tal como marretas, martelavam insistente e incessantemente em minha mente, e minha Dor aumentava com isso.

Revoltado, culpei a Deus por tudo isso. Clamei e reclamei, mas resposta alguma obtive. Senti-me perdido, abandonado, esquecido, ludibriado.

Debatia-me com todas as forças, lutando contra o mar, tentando vencê-lo. Eu queria dominar a Dor, livrar-me dela. Em vão, eu desejava “voltar ao normal, ao que era antes”. Tudo o que eu conseguia era enxergar uma tristeza sem fim e sentir a Dor que havia se entranhado nas células de meu corpo, deixando o meu coração em carne viva.

Até que... num dado momento, aquele que parecia ser o meu último instante, eu abri mão da fuga, do medo, da revolta, da tentativa de racionalizar e entender.

Parei de debater-me.

Entreguei-me ao mar.

Aceitei a Dor. Recebi-a como parte da vida, como parte de mim – uma parte que também precisa ser amada.

Confiei na sabedoria da vida, nas forças que jazem, desconhecidas, nas profundezas de minh’alma. Confiei, aceitei e me entreguei. Pensei que eu iria afundar, desaparecer, cessar de existir.

Nesse mágico instante, uma Paz imensa tomou conta de mim. Já não havia mais guerra, combate ou disputa. Havia apenas o que É. E o que É, É.

Miraculosamente, embora eu ainda estivesse no mar da Dor, a Dor não mais existia. Todo o meu ser havia sido preenchido pela Presença. Já não mais havia um “eu” desejante, decisor, dominador, controlador. Havia apenas a Presença. E na Presença, tudo o mais desaparece, embora ali esteja.

Enquanto usufruía cada instante, nem me dei conta que as misteriosas correntezas do mar da Dor haviam me conduzido até a praia da Vida.

Saí do mar e me curvei diante dele, em humilde reverência e silenciosa gratidão.
29 de julho de 2009.