quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A escolha de fazer um ano realmente novo


Quem pode definir o que...


Lições de vida que colhi nas caminhadas de 2012


Há alguns anos iniciei uma tradição que pretendo manter até o fim de meus dias – refletir sobre as lições que aprendi durante o ano que se encerra, colocar no papel uma ou duas delas e compartilhar com meus amigos e amigas, solicitando que me retribuam “na mesma moeda”.

Quero compartilhar duas inestimáveis lições de vida que colhi nas caminhadas de 2012. Ambas me foram proporcionadas por coletividades, ao invés de indivíduos.

A primeira lição decorreu do exercício da CONSULTA. A consulta a que me refiro não é a médica, mas sim um dos princípios estipulados por Bahá’u’lláh  –  como estratégia para investigação da verdade, instrumento para tomada de decisões, e meio para resolução de conflitos. O Fundador da Fé Bahá’í descreve a consulta como "a lâmpada da guia, que mostra o caminho e confere compreensão", e exorta Seus seguidores dizendo: "consultai em conjunto sobre todos os assuntos" [i].

Desde 2011, Ive e eu vínhamos refletindo, orando, consultando e tomando iniciativas na busca de uma melhor qualidade de vida para nossa filha e nós próprios – no que se refere a local de trabalho e de residência. Tínhamos três opções: Santo Antonio de Jesus, Salvador e Brasília – cada qual com seus prós e contras. Iniciamos um processo de consulta a amigos e familiares, compartilhando com eles uma tabela que preenchemos com as vantagens e desvantagens, potencialidades e temores de cada alternativa. O intuito desta consulta era nos ajudar a amadurecer uma tomada de decisão que, no final das contas, seria exclusivamente nossa.

Cada resposta e feed back que recebemos (por email, skype ou pessoalmente) nos ajudou a reconhecer os múltiplos aspectos envolvidos na decisão e, em alguns casos, nos fez enxergar questões e ângulos que não havíamos sequer imaginado. Nossa visão foi significativamente ampliada, aprofundada e transformada pela sabedoria coletiva das pessoas consultadas. Vivenciamos, de fato, as seguintes palavras de Bahá’u’lláh: "a consulta confere maior consciência e transforma as conjecturas em certezas. É uma luz brilhante que, num mundo escuro, ilumina o caminho e guia. Para tudo existe e continuará a existir um estágio de perfeição e maturidade. A maturidade do dom do entendimento é manifestada através da consulta".

As consultas, combinadas com uma corrente de orações, e seguidas por ações concretas e ousadas resultaram em uma nova configuração para nossa vida – ambos residindo e trabalhando em Salvador (no meu caso, como docente da Universidade do Estado da Bahia – UNEB). Tudo isso exigiu de nós paciência e perseverança. É extraordinário poder agora olhar para trás e perceber que em cada dificuldade e crise enfrentada havia um propósito maior.

A lição que extrai desse processo foi a de que por vezes nossas vidas ficam enredadas em conjecturas, entendimentos limitados e decisões imaturas porque carecemos de coragem, humildade, transparência e confiança para buscarmos “a maturidade do dom do entendimento” através da consulta.

Para clarear melhor, é útil diferenciar a atitude da "consulta" de outras posturas, bem mais comuns, mas que são completamente distintas da lição acima enunciada. Em um extremo estão pessoas que têm por hábito trombetear seus problemas pessoais ou familiares aos quatro ventos, não no intuito de buscar ajuda, guia ou apoio, mas sim de provocar piedade, chamar a atenção ou se lamuriar. Não vejo qualquer benefício nessa atitude. Consultar não é expor publicamente assuntos privados, não é confissão de pecados, nem tagarelar sem a sincera disposição para escutar e trocar perspectivas. No outro extremo estão as pessoas tratam seus assuntos pessoais e familiares como se fossem a senha que vai detonar simultaneamente todas as bombas nucleares, ou seja, um segredo que, se revelado, resultaria na destruição do planeta. Tampouco vejo qualquer benefício nessa atitude. Consultar implica em reconhecer que não estamos sós, que há laços de amizade que nos dão sustentação, que há pessoas dignas de confiança e dispostas a nos acolher e ajudar.  

Por isso, desejo que você possa, a partir de 2013, consultar cada vez mais – em seu lar, ambiente de trabalho, comunidade e atuação cidadã –, e obter muitos benefícios desse riquíssimo processo!

A segunda lição está relacionada à FELICIDADE, e me foi demonstrada por outro “mestre coletivo”: os estudantes a quem leciono na UNEB e na FTC. Ao conviver e escutar jovens que estão cursando os primeiros semestres do curso de Medicina observei um paradoxo. Confesso que é mais fácil enxergar esse tipo de coisa nos “outros” de que em si mesmo, mas se o intuito for o aprendizado e não a crítica ou o julgamento, justifica-se.    :-)

Diariamente esses jovens se queixavam intensamente da sobrecarga de aulas, estudos, leituras, provas, atividades de campo, seminários, cobranças e notas. Traduzindo as entrelinhas dessas falas, seria algo como “todos os problemas de minha vida são causados pelo fato de eu ser estudante de Medicina”. O paradoxo decorre do fato de que um ano antes eles estavam se lamuriando pelo fato de ainda não terem sido aprovados para o curso que tanto desejavam. Ou seja, a síntese seria: “todos os problemas de minha vida são causados pelo fato de eu não ser estudante de Medicina. Se eu estivesse na faculdade, seria a pessoa mais feliz do mundo!”. Entretanto, agora, mesmo tendo realizado o acalentado sonho, eles haviam postergado o seu projeto de “ser feliz” para quando tiverem concluído o curso.

Como já trilhei essa estrada, sei muito bem que ao concluir a faculdade, a tendência será que eles voltem a adiar novamente o momento de se permitirem ser felizes, colocando novas condições ad infinitum: “Se eu for aprovado para a Residência Médica”, “Quando eu concluir a Residência”, “Quando eu arrumar um emprego”, “Se eu ganhasse bem”, “Quando eu me casar” etc.  

Denominei isso de “condicionalidade”: qualquer condição que a pessoa define como pré-requisito para a felicidade. Funciona assim: Se  “x”  começar ou acabar, acontecer ou deixar de acontecer, aumentar ou diminuir, mudar ou parar, ... então (e somente então!), eu poderei ser feliz. O grande perigo das condicionalidades é nos levar a desperdiçar a vida procrastinando a felicidade em função de alguma meta ou conquista. Por mais importante ou meritória que esta possa ser, não vale a pena coloca-la como pré-requisito para a felicidade.

Observando meus estudantes, descobri que quando há uma situação que está nos incomodando, temos a tendência de imaginar que se a mesma for resolvida, tudo em nossa vida terá se resolvido. Isso ocorre quando estamos enfrentando um problema verdadeiramente grave, mas também nas fases em que a vida está transcorrendo em seu ritmo e turbulência habituais.

Por que esse fenômeno ocorre mesmo quando não há uma ameaça real ao nosso bem-estar? Porque omodus operandi  da mente consiste em eleger, a cada instante, um motivo (ie, uma justificativa) para nãonos sentirmos felizes. Essa lista de justificativas é infindável, pois sempre é fácil detectar “algo de errado” – seja ao nosso redor, seja nos “outros”, seja em si mesmo (as filas para cirurgias plásticas são uma demonstração dessa capacidade ilimitada de se sentir insatisfeito – mesmo quando não há razão para tal). Enfim, não importa o quanto a pessoa se esforce, avance ou supere desafios... a sua mente imediatamente colocará um novo problema no topo da lista, de modo a justificar o seu permanente descontentamento e frustração.

A segunda lição, que ainda preciso praticar bastante, poderia ser expressa nestas palavras: Escolho ser feliz agora mesmo, desde já, independente de quaisquer condições ou exigências. Se determinada conquista me trará uma dose adicional de felicidade, lutarei para concretizá-la. No entanto, não adiarei a felicidade de estar vivo aqui e agora, aprendendo, crescendo e servindo, em nome de algo que está localizado no futuro (ou no passado), algo que poderá ou não ocorrer, algo que depende de outrem. As expectativas que criei, as regras que formulei, as exigências que cobrei... nada disso me fez mais feliz, nada disso ajudou outros a serem melhores, nada disso trouxe benefício ao mundo. O amor que dei, graciosamente, esse sim, fez diferença. O bom exemplo que pratiquei, esse sim, melhorou o mundo – no mínimo, o meu próprio. As virtudes que desenvolvi – essas sim – me fizeram e me fazem feliz. O tempo, a energia e os bens que doei em favor de alguém ou de alguma causa nobre – esses sim – me enriqueceram e dão sentido à minha vida.  

Meu sincero desejo é que em 2013 você possa vivenciar a felicidade a cada instante, a cada passo, a cada tentativa, a cada tropeço e a cada vitória – sem qualquer condicionalidade a bloquear a alegria oculta nas pequenas coisas, o prazer de trilhar o caminho, o contentamento de quem está entregue à Sabedoria Suprema, o regozijo que brota espontaneamente da alma!!!

Se você desejar e puder compartilhar comigo algo significativo que tenha aprendido, vivenciado, reaprendido ou refletido em 2012, ficarei imensamente agradecido com esse presente para inspirar o meu Ano Novo.
Com sincero afeto,

Feizi

 ____________________________________________________ 

[i]  A consulta, conforme Bahá'u'lláh preconizou, é um processo de diálogo e construção coletiva no qual os participantes se empenham por transcender seus pontos de vista individuais, a fim de funcionarem como membros de um corpo com interesses e objetivos próprios. Em tal atmosfera, caracterizada por sinceridade e cortesia, as ideias não pertencem à pessoa a quem essas ocorrem durante a conversa e sim ao grupo como um todo, para que ele as aceite, rejeite ou revise, como melhor lhe parecer para servir ao objetivo em vista. O propósito da consulta é alcançar um consenso sobre a verdade de uma dada situação e à escolha da ação mais sábia dentre as opções disponíveis num dado momento. 


domingo, 2 de dezembro de 2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Onde você está procurando pela chave?

As histórias e contos sempre foram utilizados para transmitir lições de vida e valores que sintetizam a sabedoria de um povo. São uma estratégia educativa sensacional, pois atraem, encantam, sensibilizam e desencadeiam reflexões de uma forma leve e agradável. Ninguém se sente ofendido ou ameaçado por uma história, mas qualquer um pode se identificar com a mesma e aplicá-la à sua situação concreta.

Uma das histórias que eu gosto de contar é a que aparece nesse vídeo. É um conto oriental, uma das muitas estórias de "Mullá Nassrudin", um personagem que ora faz o papel de tolo, ora de sábio.

A "moral" dessa história pode ser aplicada desde à construção de uma Cultura de Paz no mundo, quanto aos desafios que cada um enfrenta em sua vida pessoal.


http://www.youtube.com/watch?v=xkCwbkX6pVA&feature=youtu.be

sexta-feira, 23 de março de 2012

Por que escolhi trabalhar com Cultura de Paz?


Fui convidado a fazer uma palestra sobre  CULTURA DE PAZ na XXXVIII Jornada Internacional de Cinema da Bahia, que ocorreu em Salvador, em setembro de 2011.

Enquanto me preparava para falar a essa singular platéia, percebi que cineastas nada mais são que "contadores de histórias" e decidi contar-lhes a minha história. 

Ao fazer essa releitura da trajetória familiar, descobri que a Cultura de Paz está entranhada em nosso DNA... e isso, com certeza, teve profunda influência em minha escolha dessa temática como foco de minha atuação como educador, pesquisador e empreendedor social. 

Compartilho essa descoberta nesse vídeo: 


http://www.youtube.com/watch?v=diIgD2kwUkA&feature=youtu.be


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma ponte incomparável



Recentemente foi inaugurada a ponte mais extensa do mundo, na China, tendo sido destaque na mídia internacional. Entretanto, ela é pequena, se comparada com a ponte estabelecida por estudantes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Pontes servem para conectar, aproximar e facilitar o ir e vir, e as trocas. Nem todas as pontes são materiais. Há pontes invisíveis muito importantes conectando pessoas, grupos e comunidades. 

A maravilha da engenharia chinesa resultou da combinação de concreto e aço, tendo o desafio de atravessar 42 quilômetros sobre o mar da baía de Jiazhou. A conquista dos jovens baianos  interligou Santo Antônio de Jesus a Teerã, resultando da combinação de cidadania planetária e solidariedade humana, tendo o desafio (muito maior!) de superar os abismos da indiferença e o lodo do egoísmo.

Nem os onze mil quilômetros de distância, nem as diferenças de nacionalidade, idioma, cultura e religião foram capazes de impedir que corações e mentes se conectassem em torno da defesa do direito humano à educação e em favor da tolerância religiosa.

Tudo começou porque um grupo – que vinha estudando temas como ética e humanização, e refletindo sobre a vida de líderes servidores como Gandhi, Luther King, Mandela, Ruhiyyih Rabbani, Betinho, Chico Mendes, Irmã Dulce, Rigoberta Menchú e Helen Keller – decidiu realizar um “ato de serviço” – uma ação social que pudesse contribuir para a melhora do mundo.

Várias causas e possibilidades foram levantadas, mas houve uma, em especial, que os sensibilizou: milhares de jovens iranianos cujo acesso à universidade é proibido pelo governo daquele país. Creio que se deram conta de que o anseio de aprender, prosseguir com os estudos, conquistar um diploma e uma profissão é um sonho universal e um direito de todo ser humano. Ser impedido de realizar o seu sonho por causa de sua religião, por participar do movimento estudantil, por pertencer a uma minoria... é uma forma de violência e opressão inaceitável – em lugar nenhum do planeta. Dentre os mais violentamente perseguidos pelo governo iraniano encontram-se os 300.000 seguidores da Fé Bahá’í. Diante da negação sistemática de matrícula e da expulsão de alunos bahá’ís, essa pacífica comunidade religiosa organizou programas educativas para seus filhos, que culminavam no Instituto Bahá’í de Ensino Superior (IBES) – uma rede clandestina de professores voluntários, apostilas fotocopiadas e distribuídas secretamente, aulas presenciais em sótãos de residências particulares e estudo pela internet. A reação das autoridades é estarrecedora: professoras de aulas para crianças foram enforcadas, jovens que educavam adolescentes foram presos, e docentes do IBES receberam longas penas de aprisionamento.  

No conforto e segurança de nossa sala de aula na UFRB, jovens que muito batalharam para realizar seu sonho de cursar a universidade iam conhecendo a história de outros membros de sua geração, arbitrariamente impedidos de alcançar essa conquista. Estabeleceu-se então uma ponte – a da empatia, do compromisso com os direitos humanos e da luta por aquilo que é justo, verdadeiro e bom.

Em seguida, os estudantes da UFRB buscaram se inteirar melhor sobre o assunto e começaram a organizar uma atividade para informar e mobilizar professores, técnicos e seus colegas em relação a esse drama que está ocorrendo agora mesmo, no presente momento. Decidiram engajar-se em uma campanha internacional que vem ocorrendo em diversas universidades e pela internet: “Can you solve this?” (Você pode resolver isso?).

Assim, no dia 14 de fevereiro de 2012, o Centro de Ciências da Saúde da UFRB conectou-se com o povo do Irã, com os jovens bahá’ís  e os demais estudantes cujo acesso à universidade é impedido pelas autoridades da República Islâmica. Uma gigantesca ponte constituída pelo simples gesto de dizer “sim, eu me importo!”. Como ensinou Martin Luther King, “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”.

Naquela manhã, as pessoas chegavam para mais um dia de estudo e trabalho, e se deparavam com banners, cartazes e a exibição contínua de vídeos e documentários sobre uma situação que a maioria desconhecia até então. Durante todo o dia, os estudantes organizadores distribuíram panfletos e deram informações. Os transeuntes que dispunham de alguns minutos eram convidados a acessar ali mesmo o site da campanha e assinar uma petição on line dirigida a autoridades brasileiras e da ONU em favor da garantia do direito à educação – sem discriminações ou perseguições – pelo governo do Irã.

Mais de 200 pessoas assinaram a petição nos computadores disponibilizados. Cerca de 400 integrantes da comunidade acadêmica receberam o panfleto. Todas se sensibilizaram com a situação dos jovens ilegalmente privados do acesso ao ensino superior.

Descobrimos que 11.000 quilômetros podem ser “logo ali” quando nos reconhecemos como cidadãos planetários e co-responsáveis pelo bem-estar de todos. Não há obra de engenharia que se compare com essa conquista da consciência!


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Deus Tempo



De todos os deuses, o mais implacável é o tempo. Jamais volta atrás, é inapelável. Não pára um instante sequer. Não admite retrocessos nem aceita antecipações. Exerce seu poder transformador e deixa suas marcas, sem piedade. Não perdoa os que tentam enganá-lo ou desprezam a sua autoridade. Reina absoluto e permanente, afetando-nos a cada segundo.

Costumamos dizer que o tempo passa, mas na realidade quem passa  somos nós mesmos. E como passamos rapidamente. De simples célula-ovo nos transformamos em recém-nascidos, num piscar de olhos já saímos da infância, nem bem nos acostumamos com as mudanças da adolescência e já nos tornamos jovens, antes que possamos usufruir dessa etapa ficamos adultos e logo atingimos a terceira idade. E deste mundo passaremos para o vindouro. Enquanto nós vamos passando, o tempo permanece inalterado e intocado.  

Somos, portanto, passageiros dessa espaçonave chamada tempo. Nós passamos por ele e ele nos leva sempre adiante, rumo ao desconhecido. Apesar de ser implacável no exercício dos poderes que lhe foram concedidos, o deus tempo respeita as Leis do Universo e não transgride os limites que lhe são impostos. Por exemplo, o tempo não tem o poder de decidir para onde vai nos conduzir. Essa escolha é pessoal, íntima, intransferível.

Cabe a cada um escolher a sua destinação e, a nave tempo seguirá o rumo específico para se chegar àquela meta. O tempo não define o destino, apenas nos conduz para onde almejamos. O tempo respeita a nossa liberdade de escolha e não questiona se a rota é certa ou errada, se a viagem será boa ou ruim.   

Algumas pessoas passam a vida inteira adiando para amanhã a sua decisão. Outras, não desejam sair de onde se encontram. Ambas, ao concluírem a jornada, descobrirão que estão exatamente no quilômetro zero. Talvez nesse momento se arrependam, mas aí, o tempo demonstra o seu absolutismo e não permite viagens extras ou caronas. Afinal, quem chega ao fim de linha, ao ponto final, tem que descer do ônibus. É assim que funciona.  

Escolher é um direito mas também um dever. Direito porque ninguém pode lhe obrigar a fazê-lo e por ser um privilégio intransferível. Dever porque tudo o que existe tem um princípio e um fim, e unindo estes dois pontos há que haver uma linha, um sentido. O princípio é pré-determinado, o fim é uma escolha que resulta da direção empregada à linha da vida. Se não há uma escolha consciente, não há avanço na dimensão interna do ser. Isso significa que, o fim incidirá no mesmo ponto do princípio. Nesse domínio, o do espírito, é como se essa vida se resumisse a um único ponto, ao invés de uma linha.  

É, portanto, o dever de definir um rumo para que a espaçonave “Sua Vida” possa decolar. Dever de assumir um compromisso consigo mesmo, de se posicionar perante a existência, de ter consciência de quem se é e do que se almeja. Dever de deixar o mundo um pouco melhor do que quando nele chegamos.  

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Educação continuada de mães, pais e cuidadores - Uma experiência exitosa


O Programa Quero uma vida melhor para meus filhos  vem sendo desenvolvido desde 1999 em escolas, faculdades e ONG’s de diversas cidades brasileiras. Nesses 12 anos, participaram mais de 11.000 mães, pais e cuidadores, oriundos de todos os níveis sócio-culturais, beneficiando 150.000 crianças.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

Os temas mais trabalhados têm sido: 
 Desenvolvendo as múltiplas dimensões de crianças e adolescentes
  
 A psicologia da gravidez e amamentação
  
 Os desafios dos 5 primeiros anos
  
 Necessidades psico-emocionais da criança
  
 Liberdade e limites: Em busca do equilíbrio
  
 Adolescente X família: Como conciliar?
  
 Cultivando a saúde da relação pais – filhos
  
 Ética: oferecendo uma bússola para a vida
  
 O papel insubstituível do pai

 Valores no lar: onde a gente aprende a ser gente (de verdade)

 “Bullying”: quando a escola não é um ambiente acolhedor e seguro

 Sucesso na escola: como ajudar os filhos

 Prevenção ao abuso de drogas: quando e como começar?

 Educando com base em virtudes
METODOLOGIA

O Programa consiste de encontros nos quais são abordados temas críticos da educação de crianças e adolescentes na contemporaneidade. As apresentações focalizam princípios norteadores através dos quais cada pai ou educador pode buscar alternativas que sejam eficazes e, ao mesmo tempo, viáveis para o seu contexto familiar, visando ao desenvolvimento equilibrado das potencialidades de seu filho(a).

Cada encontro consiste de palestra, debates e intercâmbio de experiências. Exercícios práticos são propostos aos participantes e perguntas e depoimentos são estimulados. 
 
IMPACTOS

Os impactos positivos e as significativas mudanças proporcionadas pela metodologia do trabalho foram confirmados por avaliações feitas junto aos participantes.
Esse trabalho preventivo, quando desenvolvido de forma  sistemática e continuada, promove relações mais sadias e equilibradas no lar. Para crianças e adolescentes, isso é essencial, tanto do ponto de vista psicológico e emocional, quanto de seu desenvolvimento cognitivo e intelectual. O fortalecimento dos vínculos familiares é reconhecido como um fator de prevenção ao fracasso escolar, ao abuso de drogas, à marginalidade e violência, e à gravidez precoce.
IMPLEMENTAÇÃO
Quero uma vida melhor para meus filhos  é um programa com a chancela do INPAZ (Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos), podendo ser implementado em diversos formatos.

 
Desde novembro de 2009, o Programa foi implementado em quatro escolas públicas São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador, graças à Secretaria de Educação do município. 

Nos anos de 2007 e 2008, o Programa contou com a parceria da prestigiosa Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (http://www.bahiana.edu.br/). A "Bahiana" disponibiliza, em seu site, podcasts das palestras que ministrei este ano. São trechos das palestras, em vídeo e em áudio, que podem baixadas para o seu computador.

Para acessar esse material, basta clicar em: http://www.bahiana.edu.br/moodle/mod/resource/view.php?id=1442


PARA MAIORES INFORMAÇÕES

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fotos e registros de meu trabalho

Car@  internauta,


Criei um álbum no Facebook, com registros de diversas facetas de minha atuação profissional e acadêmica. O álbum é de acesso público:

 
Seja bem-vind@ a visitar o álbum, deixar seus comentários, divulgar o link....

domingo, 19 de junho de 2011

Momento Mágico

Herdei o amor à música clássica de meu pai. Melhor dizendo, aprendi a amar a música clássica com meu pai. Ele comprou uma vitrola e vários discos (de vinil, é claro) especialmente para que meu irmão e eu tivéssemos a chance de ouvir os clássicos. Assim como papai, sou apaixonado pela 5ª e 9ª Sinfonias de Beethoven.

Entre os CD’s e DVD’s que coloco para minha filha Kamili, vários trazem músicas clássicas. Essa escolha é intencional. Não se pode amar algo que não se conhece. O primeiro passo é entrar em contato, ouvir algumas vezes, até conhecer. Do conhecimento, brota o amor. É um processo de sensibilização: tornar-se sensível, receptivo. Em outras palavras, ser tocado pela música.

Hoje, Kamili pediu à mãe para ouvir a música do “tchi-bom-bom”. Para nossa surpresa e satisfação, ela se referia à Quinta Sinfonia de Beethoven – mais especificamente ao famoso “tchan-tchan-tchan-tchan”...

Minha esposa colocou o CD com uma versão da Sinfonia para bebês, e Kamili acompanhou a música balançando a cabeça. Em seguida, coloquei um DVD com a apresentação da Filarmônica de Berlim sob a regência de Herbert von Karajan. Eu precisava me barbear e ia deixá-la assistindo sozinha, mas me dei conta que para instilar o amor à música naquele coraçãozinho, eu teria que estar junto dela, apreciando, valorizando, compartilhando.

Assim, deixei as demais preocupações de lado, sentei-me no sofá e coloquei Kamili em meu colo para assistirmos ao DVD. Em alguns momentos, apreciávamos em silêncio; em outros, eu dava explicações (esse é o maestro, ele faz gestos para cada músico saber o momento certo de tocar), apresentava os instrumentos (veja o clarinete, esses são os violinos), explicitava os movimentos da música (ouça como está baixinha, agora todos vão tocar juntos, com força), cantarolava a melodia, e expressava o meu prazer com a beleza da composição.

Aninhada em meu colo, Kamili assistia a tudo em um silêncio comovente e um olhar compenetrado e reverente. Comungávamos juntos, de uma obra artística eterna e universal. Nesse instante, lembrei-me de meu Velho. Senti saudades dele. Agradeci a ele por essa nobre herança e por essa educação dos sentidos e sentimentos. Senti meu pai presente, compartilhando conosco daquele momento mágico em que o amor à música clássica era transmitido de uma geração à seguinte.

É provável que, no futuro, Kamili não se recorde desses breves minutos mas, para mim, ficarão eternizados como um precioso Momento Mágico.

sábado, 1 de janeiro de 2011

SUCESSO, FRACASSO E PERFECCIONISMO

Trabalhando com formação de lideranças há mais de vinte anos, observo uma tendência crescente: o perfeccionismo. Acompanham-no seus efeitos colaterais – ansiedade, medo de fracassar, obsessão pelo sucesso, frustração, competição exagerada e depressão.

Alguns pensam que perfeccionismo é virtude, mas não é. É garantia de sofrimento, já que a perfeição é inatingível. Por melhor que seja um automóvel ou um computador, por mais bela que seja uma flor ou uma mulher, sempre é possível se imaginar outro/a que lhe seja superior.

Os perfeccionistas sofrem porque não importa o quanto se esforcem, terminam constatando que não alcançaram a “perfeição”. Se, ao invés dessa meta inalcançável, estivem buscando a excelência, certamente se sentiriam mais fortes, motivados e capazes. Isso porque a excelência de cada coisa, projeto ou objetivo é definida levando-se em consideração as condições prévias, os recursos existentes, o prazo disponível, o grau de experiência e competência, os apoios possíveis, dentre outros fatores que influenciam todo e qualquer resultado. Por outro lado, ao se definir a perfeição de algo, desconsideram-se o contexto, o momento, as possibilidades e limitações. Não é algo inteligente de se fazer, portanto.

Dentre os efeitos colaterais do perfeccionismo destaca-se a “ansiedade de desempenho”. A obsessão pelo sucesso e o medo de fracassar não ajudam a pessoa a avançar, crescer e conquistar o que almeja, mas sim, interferem negativamente como uma profecia auto-realizadora.

Para se libertar dessas amarras, é preciso buscar a nossa própria definição pessoal de “sucesso” e “fracasso”. Embora todos acreditem “pensar com a sua própria cabeça”, a verdade é que a maioria de nossos modelos mentais é construída sobre crenças e conceitos que absorvemos de modo inconsciente da cultura em que estamos imersos. O primeiro passo, portanto, é questionar cada uma das premissas sobre as quais nosso modelo mental de sucesso e fracasso se baseia.

Se você constatar que os seus conceitos de fracasso e sucesso são estreitos, rígidos e cheios de expectativas exageradas – porque fundamentados no perfeccionismo –, então pergunte a si mesmo se deseja, conscientemente, adotar esses critérios para nortear e avaliar sua vida?

Ao refletir profundamente, você descobrirá que só existem três possíveis fracassos na vida:

1. NÃO TENTAR - Quando você está com tanto medo de errar ou perder que decide que é melhor desistir, mesmo sem haver tentado.

2. DESISTIR - Quando você tenta um pouco, por algum tempo, percebe que o seu sonho é desafiador, e então decide que será mais fácil mudar de sonho, ao invés de lutar por ele. (É claro que há situações nas quais você já fez todos os esforços para atingir uma meta, já tentou todas as estratégias e, após uma cuidadosa avaliação, decide estabelecer uma nova meta para si mesmo. Isto não é desistência!).

3. NÃO APRENDER COM AS TENTATIVAS E ERROS - É preciso perguntar-se, sempre: “o que posso aprender dessa experiência? Que lições posso extrair dessa dificuldade?” Quando não se faz esse tipo de questionamento, o passar do tempo acarreta apenas no aumento da idade, e não no amadurecimento. Maturidade provém da reflexão e do auto-conhecimento, não do envelhecimento.

Quem compreender esses fatos, nunca se sentirá um fracassado na vida. Mesmo se houver tentado tudo o que podia e tudo tiver saído “errado”, saberá que tudo isso foram TENTATIVAS, e não fracassos. Entenderá também que fracassar em uma situação específica não significa, de modo algum, ser um fracassado (por inteiro)!

Tentar conscientemente é aprender. E aprender traz experiência. A experiência nos prepara para não repetir os mesmos erros. Então, cometem-se outros erros, que vão ensinar novas lições. Como disse Carlinhos Brown, “vamos cometer novos erros”! Todo esse processo resulta em amadurecimento. Portanto, se você foi capaz de aprender alguma coisa de uma experiência, ela jamais poderá ser considerada um fracasso.

Feliz 2011 !

Estimad@  Internauta que visita este blog,

Espero que você e todos que você ama tenham celebrado as Festas com saúde, amor e alegria, preparando-se para fazer de 2011 um novo estágio evolutivo em seu crescimento como pessoa, como membro de sua família, sua comunidade e de nossa humanidade.

Que nessa caminhada encontremos formas mais efetivas de nos colocarmos a serviço da melhoria do mundo, e sejamos capazes de nos apoiar e encorajar mutuamente.

Aproveito para compartilhar algumas coisas que aprendi em 2010, e se você puder me retribuir na mesma moeda, ficarei imensamente agradecidoSinta-se convidad@ a deixar o(s) seu(s) aprendizado(s) aqui, nos comentários.  

Aprendi, com a minha amiga Profa. Terezinha Rios, que "a História não é a passagem do tempo por nós, é a nossa interferência no tempo".

Por isso, precisamos nos questionar sobre que MARCA temos deixado no mundo... Será que estou contribuindo de forma proativa para gerar diálogo, cooperação, respeito mútuo, inclusão, justiça e solidariedade?

Afinal, paz, ética e valores humanos não brotam por "geração espontânea"! É preciso que sejam intencional e sistematicamente semeados, cultivados e preservados!!!!

Também aprendi com as sábias palavras de Bahá'u'lláh (Fundador da Fé Bahá'í), que diz: "A melhora do mundo pode ser realizada através de ações puras e boas, de conduta louvável e digna".

Ou seja, podemos interferir no tempo, ajudando a melhorar o mundo na medida em que nos esforçarmos para que nossas ações tenham pureza de intenções, sejam motivadas pelo desejo de fazer o Bem e se caracterizem por gerar o Bem para a coletividade; e que o nosso comportamento seja cada vez mais pautado na ética e em valores universais, bem como reto e correto.

Desejo a você um Ano Novo permeado por aquela Felicidade profunda e verdadeira, que brota da realização do sentido maior da existência, do serviço à humanidade, e da transformação rumo ao Melhor que habita em cada um de nós!

domingo, 21 de novembro de 2010

Igualdade Racial - o fórum da UFRB e o poema

Participei, há poucos dias, do IV Fórum de Igualdade Racial promovido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Tive o privilégio de ministrar uma oficina para adolescentes do Ensino Médio e jovens universitários com o tema "Fortalecendo a auto-estima do jovem afrodescendente". As discussões, reflexões e troca de experiências durante a oficina foram riquíssimas, e me senti feliz por "fazer a diferença". Compartilho um poema que escrevi há mais de doze anos, sobre racismo e escravidão:

CORRENTES  E  CHAGAS


Será que o senhor me entenderá?
Será que o Senhor me atenderá?

As correntes ainda são pesadas
A vida ainda é pesada
As torturas ainda são pesadas
A angústia ainda é pesada
As cargas ainda são pesadas
A sina ainda é pesada

Será que o senhor se perpetuará?
Será que o Senhor te perdoará?

As chagas são profundas
A dor é profunda
As mágoas são profundas
A tristeza é profunda
As humilhações são profundas
A decepção é profunda
 Será que o senhor se acobertará?
Será que o Senhor me acolherá?

A vida acorrenta
As chagas torturam
A sina, humilhante
As mágoas, cargas
A angústia dói
As decepções entristecem

Será que o senhor se selvará?
Será que o Senhor me salvará?

Será que alguém me entende
quando grito
as correntes da escravidão
ainda não foram rompidas?
as chagas do racismo
ainda não foram curadas?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os mineiros chilenos e a caverna de Platão

O antídoto para a guerra, e todas as suas nefastas consequências, obviamente, é a paz. Entender ou visualizar a guerra é muito fácil. Basta ver os que caem. Provocá-la é ainda mais fácil.

Mas, entender a paz, aceitá-la e disseminá-la não é tão simples quanto possa parecer. Antes de qualquer coisa, é preciso ceder. Dar um passo atrás, reavaliar a situação e abrir mão de posições. Evitar o confronto às vezes quase inevitável em função de uma posição extremamente desconfortável.

Como, por exemplo, o caso dos 33 mineiros presos nas profundezas da terra, no meio do deserto mais seco do mundo, o Atacama, no Chile.

Foram 69 dias presos em uma mina, convivendo num buraco, 600 metros abaixo da superfície. Afundados numa convivência delicada e alimentada por temores, incertezas. À espera da vida, do retorno à sua própria e rotineira vida.

Providencial, a paz reinou entre eles. Como será que ela foi construída, conquistada e disseminada? Precisamos saber para que nos sirva de exemplo.

Prevaleceu a paz e com ela, a vida em toda a sua plenitude.

Muita gente ganhou com o show em torno do salvamento desses mineiros. Pouco importa, pois as maiores vitoriosas foram a vida e a paz, promovida com relações de respeito, diálogo, participação e cooperação.

Os 33 mineiros construíram uma cultura de paz e um “pacto de convivência” trabalhado em profundidade.

Interessante que, enquanto eram acompanhados pelo mundo, literalmente, estavam sozinhos, com pouca luz, calor e umidade intensos, sem sol, estrelas, ar puro, vento. Enfim, aquilo a que não damos tanto valor assim, pela presença discreta em nossas vidas.

Também não tinham a presença dos familiares, nem os problemas, é claro, derivados das dificuldades de relacionamento humano.

De certa forma trouxeram, para os dias de hoje, o mito da caverna de Platão. Na caverna, para o genial filósofo grego, havia seres humanos que ali nasceram e cresceram. Como metáfora, digamos que os mineiros renasceram – ao não ser soterrados – e cresceram – ao encontrar maneiras de autocontrole e determinação para resistir à prisão no fundo de uma mina.

Os prisioneiros na caverna de Platão somente enxergavam uma luz, no fundo, que projetava sombras de outros seres. Sombras que, para eles, pareciam a realidade.

Um dos prisioneiros decidiu fugir e, ao sair, descobriu que as sombras, na verdade, eram de homens iguais a eles, mas que nasceram e viviam fora da caverna.

Ao voltar, tentou contar o que vira, mas sofreu violências e morte. Ora, os mineiros do Chile inicialmente se deslumbraram com as forças que se uniram para salvá-los. Agora temem o futuro, a pobreza, as dificuldades, enquanto são assediados pelos que querem faturar com a história, em livros e filmes.

Percebem, então, que as sombras eram de homens iguais a eles, prisioneiros não no fundo de uma caverna, mas das convenções e dramas típicos de nossa espécie. Como os mineiros, tentamos sair da caverna, chegar à luz e viver intensamente. Buscamos a paz, enquanto fazemos mais guerras.

Temos dificuldade de lidar com o jogo das sombras e da realidade. Como previra Platão, dentro e fora da caverna, há dificuldades para ir em frente, embora, nos ciclos históricos, ocorram avanços.

Caminhamos, mas tropeçamos nas sombras, distraídos, parodiando o inesquecível chão de estrelas. Temos que seguir pelo caminho da paz, pois outro não há, e valorizar as coisas reais que, 600 metros terra adentro, tanto faziam falta aos mineiros chilenos.

Temos que viver com dignidade e deixar viver com respeito, e isto já será uma epopéia e tanto, embora não seja tema para livros e filmes.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Dia Mundial do Professor: 5 de outubro

P R O F I S S Ã O    D E      F É
Esta é a minha singela homenagem aos professores que conquistam o grau de Educadores:


A agricultura é uma profissão de fé. Fé, não no sentido de frequentar igreja, nem de ficar parado, esperando que Deus lhe conceda os seus desejos. Fé em sua acepção mais profunda, de acreditar e fazer a sua parte, mesmo sem a garantia do final desejado, mesmo sem enxergar aquilo que se quer alcançar. Fé como uma mescla de certeza, determinação, esperança e entrega ao processo, independentemente dos resultados.

O segredo do agricultor é a sua fé. Não há qualquer garantia quanto à colheita, mas ele planta mesmo assim. Ano após ano, movido pela fé, ele prepara a terra, seleciona as sementes, espalha-as criteriosamente e passa a cuidar de sua plantação.

Na realidade, durante algum tempo, quem olhar para o terreno, nada verá, exceto o solo revolvido, pequenos montes de terra e uma aparência desértica. O agricultor, entretanto, sabe que aquela cena aparentemente caótica oculta poderosos processos de transformação. Silenciosamente, as sementes começam a interagir com o solo, a água e o calor do Sol. Lentamente, uma nova vida tem início. Tudo isso é invisível para quem mira a terra, mas o agricultor mantém-se inabalável em sua fé. Sem se importar com o que as aparências ou com que pode ser visto na superfície, ele cuida do terreno diariamente, incansavelmente. Esparge água na medida certa. Arranca as ervas daninhas. Afugenta os animais que podem atacar a plantação. Protege-a das intempéries da natureza. Vigia para que pragas não se disseminem. Aduba o solo.

Mesmo sem a garantia da colheita, o agricultor acredita tanto que continua a fazer tudo o que é necessário e tudo o que estiver a seu alcance, para que o máximo de sementes possa brotar, se desenvolver e frutificar. Ele tem consciência de que há fatores críticos que se encontram totalmente fora de seu controle – a seca, a enchente, o vendaval, as pestes e variações bruscas de temperatura... Essa consciência, ao invés de desmotivá-lo, torna-o mais humilde e, ao mesmo tempo, obstinado em fazer a sua parte, no melhor de suas possibilidades.

Desse modo, se as condições climáticas forem favoráveis, ele terá uma superprodução. Se forem razoáveis, ele conseguirá, ao menos, recuperar o seu investimento. Se o clima for desfavorável... bem, o agricultor sabe que essa possibilidade existe e já a sofreu várias vezes, mas ele opta por não incluí-la em suas previsões, pois, se o fizesse, desistiria de seu ofício. E o restante da sociedade passaria fome.

Há vários tipos de agricultor. Dentre eles, um se destaca pela preciosidade das sementes que planta e pelo tempo que elas levam para brotar e frutificar. Essas características do seu cultivo exigem desse tipo de agricultor as mais altas doses de paciência e perseverança. Paciência, muita paciência. Perseverança, muita perseverança. Paciência e perseverança combinadas. Isso sem falar da fé inabalável e da dedicação incansável.

Trata-se do Educador. Seus campos de cultivo são os Corações e as Mentes dos educandos – terrenos férteis, mas cujo preparo e manutenção exigem grande esforço. As sementes que planta são o bom exemplo, a sabedoria e o encorajamento. A água que esparge é a sua palavra, portadora não só de conhecimento, mas também de sentimentos construtivos. O afeto que irradia através de seu olhar, gestos, posturas, do que diz e do que silencia, constitui a luz e o calor que energiza o solo.

Alguns agricultores precisam trabalhar durante semanas, talvez meses, até que chegue o momento da colheita. Já ao Professor, não é dado ver os frutos de seu trabalho. São raras as oportunidades em que ele próprio testemunha o desabrochar dos educandos ou a frutificação de seus ensinamentos, pois as sementes que semeia levam dez, quinze, vinte anos para dar frutos.

Outra característica que distingue o Educador dos demais agricultores: ele planta, mas não lhe cabe colher. Quem colhe é o próprio educando, a sua família e a sociedade como um todo. Por essa razão, o ofício de Educador caracteriza-se pela abnegação. Não qualquer abnegação, mas a legítima, que implica em abnegação de si mesmo, abnegação dos desejos de popularidade e reconhecimento, abnegação dos resultados imediatos de seu trabalho, abnegação da busca por “soluções mágicas”, “atalhos milagrosos” ou “respostas fáceis” aos desafios que enfrenta.

Se o Educador não tivesse tal abnegação, exigiria “garantias prévias” quanto ao resultado de seus esforços, cobraria a possibilidade de participar dos benefícios da colheita. Ninguém pode lhe dar a certeza de que os ensinamentos que semeia encontrarão acolhida entre os educandos, que suas qualidades como educador serão reconhecidas ou valorizadas, que sua dedicação ao ensino será recompensada pelo aprendizado dos estudantes. Este ofício exige, por sua própria natureza, total concentração no processo e sincero desprendimento dos resultados. Em outras palavras, exige entrega.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cultura de Paz contra a violência

Uma versão levemente reduzida do artigo a seguir foi publicada pelo JORNAL DA TARDE, de São Paulo, na seção Opinião (pag. 2), em sua edição de 25/09/2010.

Quem de nós fica tranquilo quando um filho ou filha sai à noite, em busca de diversão nas baladas da juventude?

O medo da violência, ironicamente, leva muitos a clamarem por mais violência para aplacá-la. Como se bombeiros usassem gasolina na luta contra um incêndio.

É o que ocorre quando se opta pela repressão como único (e discutível) antídoto aos crimes que alguns programas sensacionalistas fazem questão de alardear com máximo estardalhaço.

Outros brandem as questões estruturais como justificativa para os crimes. Ou seja, só teremos uma sociedade mais pacífica se e somente se todos os problemas estruturais como fome, falta de saúde e de educação forem solucionados.

Tal crença, contudo, conduz ao imobilismo, à desistência de se encontrar alternativas para a violência. Se formos esperar que toda a estrutura social seja reformada, para só depois agir, estaremos perdendo inúmeras oportunidades de realizar pequenas ações e intervenções pontuais que, somadas, podem resultar em significativas melhorias.

A cultura da paz parece-me mais apropriada, exequível e eficaz. Ela nos convida a aproveitar cada espaço – sala de aula, bar, condomínio, escritório, praça – como um fórum permanente de reflexão e de busca de opções para a construção da paz.

Mas isto funciona mesmo, no dia a dia, em que motoristas param seus carros para brigar porque um teria fechado o outro?

Sim, porque o verdadeiro antídoto contra a violência é a paz. Não há outro. Paz entendida como respeito, diálogo, empatia e participação cidadã. Até porque a forma mais disseminada e frequente de violência é a cometida entre familiares e parceiros íntimos. Logo, parte considerável dos crimes não é cometida por profissionais do submundo, e sim por pessoas comuns, respeitáveis cidadãos que, em determinado momento, perdem a cabeça por situações corriqueiras – uma discussão doméstica sem sentido ou uma provocação na rua.

Um dos melhores lugares para se fomentar os valores da paz é a sala de aula. Para isso, teremos que tornar o ensino cada vez mais atraente e com conteúdo significativo, sintonizado com as necessidades do mundo real e com o mundo virtual das redes sociais.

Nas regiões de baixa renda, é necessário que as escolas reconheçam as condições de vida dos estudantes, considerando situações como a inexistência de mesas, cadeiras e de ambiente para uma prosaica lição de casa. Se não há moradia digna, como exigir que o aluno estude no lar? Até que ponto os cursos de Pedagogia preparam os futuros educadores para lidar com essa realidade e compreender as necessidades de grande parcela dos educandos?

Parecem ser detalhes, mas fazem diferença. Atividades artísticas e esportivas, estudos ao ar livre, jogos, realização de ações sociais na comunidade e uso pedagógico da internet podem mudar a visão que os alunos têm da educação. E, com isso, abrir espaço para a discussão e vivência de temas como a pacificação de corações e mentes.

Não se trata de um movimento rápido, imediatista, com resultados ao final do expediente. É uma mudança cultural, uma revolução real, que trará frutos em médio prazo, pela mudança de atitudes individuais e pela construção coletiva de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

Temos que começar logo. Estimular os professores que já ousam introduzir elementos da cultura de paz em suas classes. Não há investimento mais relevante hoje – fortalecer a escola, o professor, o estudante e sua família. Impedir que as comportas da violência transbordem e criar um futuro do qual possamos nos orgulhar.

Mostrar às crianças e jovens que há caminhos, sim, para a solução de conflitos - longe da agressão e criminalidade.

Apontar saídas para a pobreza e exclusão a partir do conhecimento, do trabalho, dos valores humanos e da cooperação social.